Aviso ao internauta incauto : se quiser saber do choro de Cid Moreira, vá direto para o penúltimo parágrafo.
Porque o resto do espaço foi ocupado pelo maior preâmbulo já publicado pelo Dossiê Geral.
O primeiro contato entre as patas do blogueiro-que-vos-fala e o carpete da sede da Rede Globo, no Jardim Botânico, ocorreu em 1985. Logo depois, tive uma sensação que seria marcante: ter um texto lido por Cid Moreira.
A sensação seria marcante para qualquer jornalista, mas especialmente para quem, como eu, jamais teve qualquer vocação para TV : o blogueiro era - e é - um praticante da "imprensa escrita" que foi parar em TV por puro acidente. Terminou ficando. C´est la vie.
( É verdade: se eu fosse um filósofo de botequim, declararia solenemente que a vida não passa de uma enorme sucessão de acasos e equívocos que a gente nunca consegue corrigir a tempo. "O que diabos estou fazendo aqui? " é uma pergunta que me ocorre quinze vezes por dia, em qualquer ambiente em que esteja. Costumo fazê-la na surdina, a mim mesmo. A resposta é um silêncio cúmplice. Meu demônio-da-guarda costuma me soprar: "Também não tenho a menor ideia. Toca o barco enquanto tento achar uma resposta!").
Mas, como ia dizendo antes de ser estupidamente interrompido por este devaneio filosófico: eu estava na praia de Boa Viagem, no Recife, recém-chegado de uma temporada em Paris, onde, além de estudar cinema e ter tido a chance de um encontro com Glauber Rocha, prestei relevantes serviços à pátria francesa como camareiro de um hotel no Quartier Latin e motorista de uma família rica. Um ex-chefe de reportagem caminhava pela areia. Perguntou se eu não queria ir para a TV. Respondi que não, obrigado. Não tinha o menor interesse em trabalhar em televisão. Gostava de escrever reportagens que se estendiam por laudas e laudas (era assim que se chamavam as páginas onde nós, dinossauros, datilografávamos os textos). Jornal era minha praia. Além de tudo, uma jaguatirica da serra, minimamente maquiada, é vinte vezes mais fotogênica do que eu. Reconhecer-se pouco "fotogênico" é um eufemismo para "que bicho feio arretado!". O que diabos eu iria fazer em TV? Ficar escrevendo frases telegráficas ? E a subliteratura que eu cometia com tanta dedicação em minhas reportagens especiais para o jornal? O que é que iria fazer com ela ? De qualquer maneira, por insistência do ex-chefe de reportagem, Ricardo Carvalho, subi o Morro do Peludo, em Olinda, onde ficam as instalações da TV Globo-Recife.
Corta para 1985. Jardim Botânico, Rio. O texto que Cid Moreira gravou se perdeu na poeira da estrada: tinha sido feito para o Jornal Nacional. Descrevia o primeiro dia de desfile das escolas de samba no carnaval de 1986. Entendo tanto de escola de samba quanto o atacante Dentinho - do Corinthians - entende de física quântica. Mas o texto, claro, era meramente descritivo. Não precisava ser escrito por um especialista. Eu me lembro de que o destaque do desfile daquele ano foi a homenagem,bonita, que a Mangueira fez a Dorival Caymmi.
( Quanto a ser ou não especialista: jornalista, como se sabe, é aquele ser bípede capaz de se transformar, em poucos minutos, num profundo especialista em todo e qualquer assunto. A cena é corriqueira nas redações. Cai um avião, por exemplo. É pule dez dez: logo, logo, na reunião de pauta, um jornalista começará a pontificar sobre segurança aérea, treinamento de pilotos, técnicas de resgate, profissão de aeromoça, capacitação de comissários de bordo, envio de equipes de salvamento, programação de robôs, engenharia de vôo, diâmetro das turbinas, painel de controle,velocidade do reverso etc.etc. Faz parte do ritual da profissão. A sorte é que, antes de ir ao ar, tais teses passarão por "n" filtros).
Pois bem: depois de rabiscar o texto sobre o desfile das escolas de samba numa máquina de escrever que, hoje, pareceria jurássica, entreguei a obra-prima a Cid Moreira, para que ele gravasse. Cid chegava à redação do Jornal Nacional em torno das quatro da tarde. A cena era característica: dobrava o braço, levava a mão até a altura do ombro e usava o dedo médio e o indicador, estendidos, para carregar o paletó nas costas. Era assim que desfilava pelo corredor onde ficavam as ilhas de edição.
Instalado na cabine de gravação, ele passava os olhos no texto. Fazia marcações com a caneta para sublinhar as pausas. Depois, eu teria a chance de gravar dezenas de textos com Cid Moreira, no Jornal Nacional ou no Fantástico. Vi que Cid precisava apenas de alguns segundos de dar à leitura o tom que a gente pedia. Os grandes narradores são assim. Quando a matéria tratava de algum assunto grave, bastava pedir : "É porrada!". Quando o assunto não tinha tons dramáticos, bastava dizer: "Pega leve".
A passagem pela TV deu a este blogueiro a (rara) chance de ter suas frases mambembes lidas por vozes grandiosas, como as de Cid Moreira, Sérgio Chapelin ( é dono de uma das locuções mais marcantes, mais elegantes e mais bonitas da história da TV brasileira), William Bonner (caso raríssimo de jornalista que, se quisesse, poderia fazer carreira apenas lendo textos com aquele vozeirão), Celso Freitas, Berto Filho. São feras diplomadas e reconhecidas. A gente dizia, em tom brincadeira: "Lida por Sérgio ou por Cid, uma frase como Gugu-Dadá imediatamente soa importante".
De vez em quando, uma alma curiosa pergunta ao blogueiro: "Por que é que você não lê o texto de suas matérias na TV?". Respondo, há anos: se algumas das vozes mais marcantes da TV estão ali, ao alcance da mão, para dar brilho, ritmo, clareza e força ao que a gente escreve, por que é que eu iria dispensá-las ? Sempre que possível, recorri e recorro a elas. Fiz os cálculos: daqui a 85 anos, seis meses e vinte e cinco dias aparecerá um jornalista que leia um texto com o brilho de um Sérgio Chapelin ou um Cid Moreira. Como diria o filósofo Riachão, "cada macaco no seu galho". Voz é dom. Não se adquire.
